terça-feira, 22 de maio de 2012

Personagens Noturnos

Sempre tive hábitos noturnos, péssimo hábito e nada saudável diga-se. Mas um vicio do qual não consigo me livrar. A noite é uma companheira simpática quando se trata de produzir.
Mas hoje, ao voltar para casa, o sol já anunciando sua chegada com aquela tênue luminosidade no horizonte, vem uma figura em minha direção, cabeça baixa, franzino como uma criança, quase com medo de falar:
- E ai Christofer? Me consegue um troco?
Era um ex-colega da escola. Não o reconheci num primeiro momento. Demorei a processar quem era, tamanho o estrago que as drogas e a vida tinham lhe feito.
O rosto ossudo, pele com feridas de brigas ou surras aplicadas pela polícia, roupas reduzidas a alguns trapos que exalavam um odor que denunciava a falta de banho há dias.
Não é o primeiro ex-colega que vejo nessa situação, já vi outros.
Alguns vivos, outros quatro ou cinco nos seus respectivos funerais
Vejo a televisão e os jornais anunciando campanhas contra o crack, vejo planos do governo federal para o tratamento de viciados.
Onde entram os planos para se evitar isso? Será que alguém já pensou em ouvir desses que são tidos como escória da sociedade o tamanho da decepção deles com o mundo? Quem olha de fora é fácil estabelecer uma critica a esses "viciados", sem ter noção do quanto faltam oportunidades a estes.
Cadê a maldita pátria que os pariu?Discutindo o tal Rio+20?
E onde está a midia? Mostrando o monstro que o crack é para a sociedade provavelmente.
Estendi a mão para me despedir, ele se encolheu achando que eu iria agredi-lo. Apertei sua mão sabendo que muito provavelmente só voltaríamos a nos ver no seu funeral.
Eu sei disso, e vi isso nos olhos dele também, uma mistura de tristeza e resignação por também saber.

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