quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Grito Mudo

As vezes fico catando palavras. Mas não sei por que. Talvez para pedir ajuda, talvez seja  um grito sem voz. Grito inútil, afinal, não tem ninguém para escutar mesmo, e se escutar, não vão entender. É mais ou menos como falar para as paredes, pois olho para os lados, e as pessoas que aqui estavam desapareceram. Sumiram.
Não, não sumiram. Talvez nunca tenham estado aqui. Eu que imaginava que estavam.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O diagnóstico e a terapêutica

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um
reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos,
despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos
febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes. O
amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por
descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode
impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de
alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e
ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção
capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis
beberagens com garantia e tudo. (Eduardo Galeano)

A noite/1



Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas
pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher
atravessada em minha garganta. (Eduardo Galeano)